MESTRA INESQUECÍVEL

Publicado em 26/04/2020 às 20:14 por Redação

Mons. Luiz Antônio Reis Costa*


Tive a honrosa incumbência de, no início dessa Semana de Páscoa, dirigir as últimas orações do funeral de uma pessoa muito estimada: a professora Marlene Moreira Magalhães. Mencionar o seu nome evoca em mim tantas lembranças dos meus tempos de estudante na Escola Estadual Marília de Dirceu, onde centenas de alunos passaram por suas aulas. Marlene era uma professora dotada de um estilo único e de uma personalidade forte. Conviver com ela era simultaneamente desafio e encanto. A fama de professora severa a precedia, mas o temor do alunado era rapidamente sucedido por um clima mais descontraído e, daí, brotava o encanto. Marlene reagia conforme a turma ou o aluno em questão. Inimiga declarada da malandragem e da indisciplina sabia colocar os insubordinados em seu devido lugar apenas com um olhar ou com uma repreensão certeira. Todavia, quando notava interesse, boa vontade e desejo de aprendizado a sua conduta se tornava praticamente materna. Explicava a matéria com riqueza de detalhes e exemplos. Cobrava também o esmerado cultivo da memória. Realmente inesquecíveis se tornaram as aulas, e mais ainda as provas, sobre as locuções adjetivas. Por meio delas descobrimos as origens gregas e latinas do nosso português.

Outro elemento inesquecível, para quem soube aproveitar bem das suas aulas, foi a introdução ao fascinante mundo da literatura erudita. Despertar o interesse dos jovens pelos clássicos não é tarefa de pouca monta. Dona Marlene, assim era chamada, tinha um estratagema interessante, sabedora que era da instintiva curiosidade dos adolescentes. Simplesmente dizia que a literatura clássica era a melhor janela para conhecermos o mundo real com suas alegrias e os seus dramas: “curiosos para conhecer o mundo dos adultos? Leiam os clássicos e tirem deles lições de vida”. E assim fomos colocados em contato direto com trechos seletos dos grandes escritores num exercício de valiosa interpretação. Diante de nós desfilavam os grandes dramas humanos narrados, a título de exemplo, por Machado de Assis, Eça de Queirós e Euclides da Cunha. Também não faltou a lírica de Tomás Antônio Gonzaga e os seus saudosos lamentos dirigidos à patrona de nossa escola. Perplexos descobrimos a quem o Padre Antônio Vieira se atreveu a suplicar conversão com o “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda”!

Mas não vivíamos só dos antigos e celebrados autores. Naquele já distante 1985 acompanhamos pari passu a lenta agonia de Tancredo Neves e o significado daquele momento histórico mediante escolhidas crônicas jornalísticas. Assim era Dona Marlene.

As aulas também eram entremeadas pela narrativa de suas reminiscências e outros casos interessantes. Era o seu lado pitoresco e, com isso, cativava os alunos, fazendo-se adolescente com os adolescentes. A maioria dos professores não falava de si, mas Dona Marlene misturava com grande liberdade os tempos verbais com os seus tempos de

*Ex-aluno de D. Marlene e atualmente Vigário Geral da Arquidiocese de Mariana - MG e professor no Seminário de Mariana.

Piranga. Os entes gramaticais dialogavam com as figuras ilustres e os tipos folclóricos de Ouro Preto e da sua terra natal. De forma natural o ser humano transcendia a profissional da educação. Aprendíamos que a nossa Mestra tinha uma história pessoal com suas alegrias e tristezas, com suas conquistas e impasses. Disso tudo emergiam lições memoráveis, uma verdadeira educação para a vida. Exemplifico com um fato singelo e tocante. Certa feita, analisávamos o belo discurso de Paulo Setúbal, aquando de sua posse na Academia Brasileira de Letras. Um belo discurso de gratidão. Dona Marlene introduziu o texto dizendo que nunca deveríamos nos envergonhar das nossas origens familiares, por mais pobres que fossem. Estar enraizado em antepassados trabalhadores e honestos, posto que humildes e analfabetos, é condição mais honrosa que um título de nobreza. Por isso, aos filhos incumbe o dever da melhor gratidão para com os seus pais. E leu a seguinte passagem do imortal:

Mas deixai também, meus senhores, que nesta linda hora risonha, em que as emoções mais íntimas se atropelam dentro de mim, deixai que, mal acabe de vos agradecer, eu me ausente precipitado destas galas. Sim, deixai que meu coração voe para longe daqui, fuja para minha estremecida cidade de São Paulo, e lá, comovido e respeitoso, penetre por um momento, muito de manso, numa casa modesta de bairro sem luxo. Nessa casa, a estas horas, nesta mesma noite, está uma velha toda branca, oitenta anos, corcovada, com seu rosário de contas já gastas, a rezar diante da Virgem pelo filho acadêmico. Pelo filho que ela, a viúva corajosa, ramo desajudado, mas altaneiro, de família opulenta, criou, educou, fez homem — Deus sabe com que sacrifícios e com que ingentes heroísmos obscuros! Deixai, pois, senhores acadêmicos, que meu coração voe para a casa modesta de bairro sem luxo, entre no quarto do oratório, ajoelhe-se diante da velha branquinha, beije-lhe as mãos e, na brilhante noite engalanada deste triunfo, diga-lhe por entre lágrimas: “Minha mãe, Deus lhe pague!” *

Chorou a professora. Choraram os alunos. Naquele dia não tivemos somente uma aula convencional. Foi uma das mais belas lições de vida que recebemos. Por isso, Dona Marlene sempre será uma Mestra inesquecível.

*Fragmento de Confiteor, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1983, 12ª Ed, pp. 112-117.
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